• Laura Assis

Ana, Carol, Carolina (parte 3) - A insegurança de voar sozinha

Atualizado: 23 de Dez de 2020

Foram dois anos de muitos sorrisos e algumas brigas. Davi era simplesmente o cara perfeito, mas Ana não compreendia e ainda pisava em falso. Ele chegava em casa ao som de Bon Jovi e com um buquê de rosas vermelhas nos braços, jamais poderia estar correspondendo àquela garota da faculdade. Davi fez sua inscrição no vestibular e lhe ensinou Biologia e Física. Um pouco de Matemática. E muito sobre dor.

Para não desanimá-la com a possibilidade da distância, fez também o vestibular. Ele fez tudo: inscrição, pagamento, a impulsionava verdadeiramente. E chegou em casa bêbado no dia da prova, dizendo que queria ser solteiro outra vez. Dizia que ela era capaz de conquistar o mundo e lhe trazia mais flores. Saíam para jantar, para dançar, para namorar. A vestia como uma princesa e não deixava que ela ajudasse nas despesas: o dinheiro dela, era todo dela. Gritava. Dizia que ela não era o bastante. Implorava que ela ficasse e lhe trazia mais flores. Dizia aos amigos o quanto tinha sorte por conhecê-la, pela maneira improvável que se encontraram pela primeira vez. Falava aos quatro cantos do amor que tinha por ela e do quanto queria vê-la crescer. A deixava sozinha no caminho de volta para casa, sem saber por onde ir. Mandava flores.

Mudaram-se, já que ela havia passado no vestibular - ele não. Fizeram um contrato, a pedido dele, que os tornava mais do que apenas noivos. Deixou que ela escolhesse o apartamento, ia buscá-la na faculdade todos os dias e levava todas as suas amigas em casa. Deixava que ela fosse ao cinema sem ele. Deixava que ela fizesse noites do pijama com as quatro amigas da faculdade. Encantava a todas, maltratava-a em segredo. Mas levava flores e o café na cama. Não queria que ela fosse empregada, lhe ofereceu seu próprio negócio. Dizia que ela era capaz de mover montanhas e subestimava sua inteligência desaparecendo sem dar notícias. Voltava para casa num estado indizível, o cheiro de álcool, a cara de arrependimento, a primeira agressão. Ela não deveria, não podia tê-lo questionado, afinal, ele não lhe deixava faltar nada, lhe dava tudo. Culpada, pedia desculpas, passava semanas e semanas pisando em ovos por medo de perdê-lo. Ele era charmoso e extremamente cuidadoso com o futuro dela, não podia julgá-lo por perder a cabeça. Afinal, ele a amava e lhe dava asas para voar. Graças a ele, Ana podia sonhar em ser uma grande tradutora de Latim, uma escritora cujos lindos romances estariam nas cabeceiras de camas de vários lugares do mundo. E, acima de tudo, ele havia lhe dado o grande lugar de madrasta que de má não tinha nada. Não era sua filha, mas era como se fosse. Podia planejar festinhas de aniversários, brincar de comidinha e ensinar a ler. Podia vesti-la como uma princesa e dormir abraçadinha com os dois no domingo de chuva. Ele lhe dera uma família e alguns empurrões, é verdade. E também o primeiro soco com a força de um homem com raiva, que lhe tirou o ar e deixou marcada por tempo o suficiente para nunca mais fazer perguntas sobre os horários ou as colegas de trabalho.

Era o cara certo, que às vezes errava. Ninguém é perfeito, oras! Nunca ninguém havia acreditado nela como ele, nunca haviam lhe dito que o mundo seria dela se assim o quisesse. Talvez até tenham dito, mas nunca fizeram com que ela sentisse que merecia, que podia, que conseguiria. Viviam bem, eram felizes, embora ele descontasse nela algumas de suas frustrações mais banais. Mas era pra isso que as esposas serviam, ela se lembrava muito bem de tudo o que aprendeu em casa. Mulheres servem, escutam, pedem. Esposas tornam o lar um lugar de paz para o marido e ela não sabia fazer isto, ela sentia necessidade, a ridícula necessidade de questionar, de saber os motivos de quase tudo. Com o primeiro rendimento de seu empenho no negócio que ele ofereceu a ela, foi ao salão e voltou para casa radiante de felicidade e realização. Contou a ele que, com seu próprio dinheiro havia se arrumado toda para sair com ele e que, naquele dia, pagaria a conta. Desprezo. Uma sacudidela pelos ombros. O batom borrado e os olhinhos inchados. Assim Carol foi dormir naquela noite e o que parecia um sonho começou a se transformar em um pesadelo. O seu príncipe estava perdido, seu marido gentil e carinhoso estava distante e frio. O que ela podia ter feito de tão grave para merecer aquele tratamento?

Talvez eu tenha me esquecido de mencionar que Carolina não entendia, antes de Davi, o que o relacionamento sexual entre um homem e uma mulher compreendia. Não entendia, como mulher, o que era ser a extensão de um outro corpo, o que era ser, ao mesmo tempo, um corpo que sente e dá sentido. Suas experiências anteriores não haviam passado de romances juvenis onde todos juram saber exatamente o que estão fazendo. Davi lhe ensinou o sexo por um prisma totalmente abstrato, doloroso e desejável. Doloroso no sentido do prazer mais intenso, mais profundo, que de tanto desejar o outro se chega à dor. Eram horas e horas de preliminares intensas e extasiantes. Ele sabia exatamente o que tirar dela e ela sabia exatamente como lhe entregar. Dela, ele apenas tirava e nada oferecia. Porém, Carolina nunca havia recebido nada, não tinha parâmetros de comparação que lhe permitissem concluir que havia muito mais sobre o sexo, sobre o amor, sobre dois corpos entrelaçados. Portanto, para ela era o paraíso, era o pecado delicioso pelo qual Adão havia pago caríssimo. Sentia-se a mulher mais feliz do mundo porque tinha um marido satisfeito. Ou pelo menos era o que ela imaginava…

Acreditava não conhecer a gratidão. Culpava-se o tempo todo. Havia recebido dos céus tudo o que passara a adolescência toda pedindo: marido, casa, criança, faculdade. Compreendia que nem tudo eram flores. Aprendeu, mais uma vez em casa, que maridos sempre tem a razão e o motivo certos, justificáveis e inquestionáveis. Abaixar a cabeça e aceitar que os homens, às vezes, são mais indelicados do que gostaríamos que fossem e menos leais do que deveriam ser.

Com o passar dos dias as flores foram mais raras e os gritos mais constantes, mais dor e menos amor. A distância entre os dois parecia um abismo sobre o qual ela não podia voar, nem mesmo com as asas que ele lhe havia emprestado. As indelicadezas, nome que ela dava aos empurrões e puxões sem limites de força, se tornaram mais frequentes, mas ainda era possível enxergar aquele príncipe que havia dado asas aos seus sonhos. Em algum lugar ele ainda existia, mesmo que só dentro dela. E ela buscava motivos para resistir, forças para resgatar o que se havia perdido. Mas a cada grito, sua luz se apagava e suas forças deixavam a desejar.

O golpe final foi encontrá-lo com outra em seu próprio sofá. Justamente aquela sobre a qual ela não podia fazer perguntas. Justamente o motivo dele ir trabalhar tão animado. A briga foi terrível, mais machucada ela não poderia sair. Emocionalmente destruída, fisicamente quebrada e totalmente, em todos os sentidos, desestruturada. Não tinha mais asas, não tinha sequer pés para caminhar. Com medo, dormia trancada, móveis encostados na porta. Os pesadelos eram cada vez piores, morria sempre ao final deles. Gritava, na madrugada escura e gelada de julho, sozinha naquele palácio que ele construíra para ela. O medo se tornou seu companheiro inseparável e, junto dele, retornou aquele desejo insano de dar a volta por cima, de superar a qualquer custo. O sofrimento não tornava ninguém digno e, por sentir que não era digno sofrer, a dor era ainda maior. De todas as maneiras tentou evitar, afastar a dor de tudo aquilo que a estava afetando, modificando. Mas era inútil fingir que não estava em pedaços, fingir que seus cacos não estavam espalhados por aí e eram incontáveis os pedacinhos de sonhos estilhaçados, que provavelmente nunca mais se juntariam. Percebeu que, pela primeira vez estava só o suficiente para viver o luto sem ser crucificada, sem ser julgada e condenada como uma perdedora, fracassada. Decidiu encarar a dor e lhe bater de volta, se fosse o caso. Sentiria tudo o que era necessário para submergir até tocar com as pontas dos pés o fundo daquele poço. Depois ressurgiria!

Para isto, deveria entregar-se à dor, mas não sabia por onde começar. Decidiu viver um dia de cada vez e, nos primeiros, não saiu de casa. Não sabia quantas horas eram ou se sentia fome. Banho deixou de ser necessário e só sabia se encolher num canto, lambendo as feridas como um cachorro atropelado ao qual ninguém presta socorro. Sabia que era necessário, portanto, permitia-se lamber as próprias feridas, curando-se um pouquinho hoje, talvez um pouquinho amanhã. Nem todos os dias eram ruins, alguns eram muito piores do que pensava poder suportar. Não era saudade, não era ciúme, não era vontade de tê-lo de volta. Era uma única pergunta que ela não conseguia esquecer nem mesmo quando dormia: “porque eu?”. Não compreendia porque ele a tinha escolhido se haviam tantas outras ao redor dele. Agora, atordoada, compreendia ainda menos todas as coisas e as perguntas ficavam girando ininterruptamente dentro dela, como mantras que jamais acabam.

Todos os dias olhava-se no espelho pela manhã e tinha vontade de voltar para a cama. Chegou o dia que não havia mais dinheiro, mais comida. Precisava arregaçar as mangas e ir atrás do que queria, mas confundia-se no como e até mesmo no por quê.

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