• Laura Assis

Ana, Carol, Carolina (parte 2) - A necessidade de alçar vôo

Atualizado: 23 de Dez de 2020

Um dos primeiros namoros sérios de Ana começou durante o colegial. Todas as suas amigas já tinham transado e eram entendidas do assunto há séculos, enquanto Carol esperava o cara certo. “O cara certo espera”, ela acreditava!

Dias e dias, meses se passaram e a pressão aumentava, mas ainda não era o cara certo. Ela só tinha dezesseis, sabia que com esta idade nenhum cara seria o cara certo. Mas, enfim, entregou-se àquele que, sem cuidado levou o que ela julgava ter de mais bonito. Obviamente, nossa amiga superou aquilo que considerou uma tragédia até ser tocada pelo cara certo e esquecer sua tormentosa experiência sexual. Talvez eu devesse usar a palavra “traumatizante”, mas acredito que “tormentosa” vai ainda mais no cerne da questão de Carolina e sua virgindade.

O cara, que jamais seria o certo - como já dissemos, se distanciou, começou um namoro com a irmã de sua melhor amiga sem mesmo se dar ao trabalho de terminar o relacionamento e, num instante, a escola inteira sabia que o cara agora namorava Aline, do time de vôlei da escola.

Aline tinha os cabelos quase loiros, encaracolados no comprimento, lisos na raiz. Tinha covinhas quando sorria, era alta e já fumava - características estas que, reunidas, faziam dela uma das garotas mais populares da escola. Em questão de semanas a jogadora estava grávida e o cara nada certo esbanjava alegria no portão da escola. Aliás, foi assim que nossa amiga descobriu o namoro de Tiago e Aline: saíram de mãos dadas do colégio, como se não estivessem passando por cima de ninguém…

Carol passou momentos que oscilavam entre euforia e depressão, vontade nenhuma de ir à escola e o enorme desejo de dar a volta por cima - sentimento este que, infelizmente, passou a vida quase toda vigiando Ana pelas frestas. Anos e anos se esforçando para dar a volta por cima, para dizer que não sentia mais, que não sofria mais… que não amava mais! E, como vocês poderão perceber daqui por diante, Tiago não foi o único cara errado que fez com que ela derramasse lágrimas quentes de dor, amor e mágoa ao mesmo tempo. Ele foi apenas o primeiro cara a fazer com que nossa protagonista se olhasse no espelho e procurasse onde estava o erro. Este foi apenas o primeiro cara errado, o primeiro que não se importou, que não tirou os sapatos para entrar, que transformou a vida de Ana num eterno cair e levantar…

Pode ser que aos olhos de quem vê, a história do colegial não tenha merecido tamanha repercussão e trauma, mas quem é que pode medir e julgar o sofrimento que apenas se vê de longe e não se sente na carne? Ana sofria dia e noite: os dias no colégio eram um tormento sem fim e as noites em casa… ela preferia não comentar.

Vivia em uma situação emocional ininterruptamente tensa, como uma corda que de tão esticada ameaça o tempo todo romper, mas nunca se arrebenta. Sentia-se pressionada de todos os lados para ser alguém melhor, para ser melhor que Aline, ser superior. Superior em que sentido? Isto ninguém explicava e ela quebrava a cabeça dia e noite para compreender, para achar a saída daquele labirinto em que havia se perdido, onde havia perdido sua confiança em si mesma - embora adolescentes geralmente tenham problemas de autoconfiança, Carol não era assim. Sempre soube que seria uma mãe exemplar, uma esposa e dona de casa sem igual!! Afinal, havia aprendido aos trancos e barrancos como cuidar de uma casa sem deixar a desejar.

Era horrível ir para a escola, onde sentia que todos riam de sua inocência diante de Tiago, mas era ainda pior chegar em casa e não ter o direito de sofrer, não poder entrar em seu quarto e chorar em sua cama até que aquele pesadelo acabasse. Sofrer em casa aumentava o sofrimento. Não podia, não era certo, não era digno. Até nisto Carolina estava errada! Mas o que fazer, então, se sofrer não era digno? Se chorar até aliviar o peso da dor e da humilhação fazia dela alguém ainda menor, ainda mais fraca e substituível? Fingir ser forte? Engolir o choro e guardá-lo para a hora de dormir? Parecia que tinha uma flecha espetada no coração e não lhe era permitido arrancá-la!

Era preciso se formar, crescer, voar para longe, para um lugar onde pudesse sofrer em paz. Queria curar-se, era óbvio, mas era impossível naquele lugar, naquela vida. Sua mãe o tempo todo repetindo que aquele choro não era sequer necessário - mas quem ensinou a ela que só se chora quando necessário? De suas amigas ouvia que era preciso arrumar logo um outro namorado e, em meio às suas leituras cotidianas na casa da madrinha, encontrou um poema que dizia que “um amor com outro se apaga”. Acreditou. Talvez não fosse mesmo necessário sofrer. Talvez pudesse sufocar aquela dor - assim como tantas outras dores cotidianas a que era submetida em casa.

Não, não podemos atribuir à Tiago toda a culpa. Ana já era desvalorizada em sua própria casa, por sua própria mãe, há muito tempo. Humilhações, violência física e psicológica. Um verdadeiro precipício cuja borda se aproximava a cada dia mais…

Antes de Tiago, existiu Rafael - e depois também. Cabelos grandes, apaixonado por rock. Tocava violão e escrevia cartas de amor. Conheceram-se num desses bate papos das antigas, apaixonados por Silverchair, logo encontraram meio milhão de afinidades e características apaixonantes. Ele era carinhoso, romântico e sempre, sempre disposto a passar horas na fila do telefone para falar com ela. Recebia dela cartas que os correios entregavam todos os dias, sim, todos os dias. O assunto era quase sempre o mesmo: o amor, a saudade, a distância e o enorme desejo de crescer e ver a vida se formar ao lado dele. Mas, o destino quis que ele fosse seu único amor que não morreria à míngua pelas mãos da mágoa ou da tristeza e, embora tenham terminado em meio à muitas lágrimas, encontraram-se quatorze anos depois para comprovar a teoria de Ana: ele seria seu amor para o resto da vida. Não aquele amor pelo qual ela sofreria, pelo qual ela se desesperaria ou se olharia no espelho procurando defeitos, mas aquele que teria forças para resgatá-la do mais profundo abismo, do mais emaranhado labirinto, apenas para trazê-la de volta à vida, para lembrá-la de quem ela realmente era e da força e beleza que tinha em seu coração, mesmo que às vezes as pessoas não percebessem. Desconfio que Rafael não saiba desse poder mas, ainda hoje, quando Carol se ajoelha em oração, o nome dele é repetido diversas e diversas vezes em meio à pedidos de proteção e agradecimentos. E, quando tudo vai muito mal, ela se lembra do quanto aquele amor lhe transformou em alguém mais feliz e procura se lembrar o quanto realmente vale, o que realmente significa diante da vida.

Mas Rafael foi apenas um parênteses nessa conversa toda sobre alçar vôo, foi o parênteses explicativo, se é que me entendem. Carol sentiu-se realmente amada e valorizada, percebendo que não podia continuar onde estava. Precisava se mexer, traçar algum plano e colocá-lo em ação. Planejou estudar, se formar e passar no vestibular em outro estado. Moraria com sua tia e estaria livre de todos aqueles dedos apontados para ela no final da aula. Estudou, estudou muito, mas não passou no vestibular e traçou outro plano. Começou em um novo emprego e um curso, saía exausta de um e ia para o outro. Não passou no concurso. Frustrou-se. Desistiu temporariamente, até ter forças para continuar, já que tudo o que sentia era que não seria capaz…

Um novo namoro, desses que não tem como dar certo, mas faz o tempo passar. Sorrisos, bagunça e um ano foi embora. Sem sofrimento, acabou. Mas levou embora algumas certezas e Ana voltou a procurar pelo rumo de sua vida. Precisava sair, precisava voar… mas não tinha asas, era como se precisasse das asas de alguém - embora grande parte de seu coração não acreditasse nisso de "voar com as asas dos outros"...

Conheceu Davi. Era um quadro na moldura perfeita. Ele lhe deu asas e todo o amor do mundo, uma pequena enteada e ofereceu um lar perfeito. Oito de fevereiro de dois mil e oito. Oito, símbolo infinito daquilo que Ana buscava. Com as asas do outro, correu, tomou impulso e voou para longe...

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