• Laura Assis

Ana, Carol, Carolina (parte 5) - A pressa para superar, o medo de ser superada

Atualizado: 23 de Dez de 2020

Por algum tempo houve o desespero pela superação, a necessidade de dar a volta por cima o quanto antes, de se mostrar inteira outra vez. Embora não quisesse deixar que Rodrigo a visse todos os dias com aquele semblante pesado, soturno, Ana conhecia muito bem todos aqueles sentimentos e decidiu que desta vez não daria ouvidos a eles. Não faria mal nenhum deixar escapar um suspiro ali, um olhar triste acolá. Com o tempo foi aprendendo que todas nós passamos por altos e baixos, que todas nós encontramos nossos “Digos” por aí de vez em quando e os deixamos partir nossos corações na esperança de que eles não sejam capazes de fazê-lo. Se ele a visse sofrer, o que ela poderia fazer? Não podia sufocar-se, nem por orgulho, nem para poupar alguém que jamais se preocupou em poupá-la.

Precisava, naquele momento, saber o que lhe fazia bem, o que lhe fazia mal e o que poderia fazer suas asas baterem forte outra vez. Precisava saber o que, de verdade, apetecia seu coração. Precisava compreender-se para que pudesse se perdoar por permitir que seu coração fosse tão maltratado, durante tanto tempo. Meditação, terapia e orações. Incensos, mantras e mandalas. Passeios pelo campus da universidade, vinho debaixo do edredom, cinema. Jantares, presentes e reconhecimento. Fez de si mesma a melhor companhia e não aceitava que lhe roubassem a solidão. Era muito mais do que necessário, era vital que passasse um tempo sozinha, descobrindo tudo aquilo ao que podia se acostumar, ao que jamais deveria se acostumar.

Fazia de tudo por si mesma, era como se tivesse se apaixonado pelo reflexo no espelho depois que os primeiros socorros deixaram seu corpo. Foi como uma visão sagrada, sublime, um momento de epifania. Como se a cortina tivesse finalmente se aberto, como se a sua neblina tivesse se dissipado para sempre. Enxergava-se, nutria-se de sentimentos bons e dizia para si mesma que, embora ainda estivesse num quarto escuro e sem ar, sairia de lá e seria tão feliz quanto nunca havia sido. Tinha a certeza desta felicidade porque a estava buscando na única pessoa que jamais a abandonaria…

Seria mentiroso, entretanto, dizer que Ana foi feliz para sempre somente amando a si mesma e nunca mais sentiu falta de amar outra pessoa. Ainda tinha seus momentos ruins, dias em que a solidão não era uma senhora feia, mas gentil. A solidão, n’algumas noites, a abraçava com força e congelava todo o seu corpo, de modo que até a respiração de Carol parecia fragmentada. Enfiava-se outra vez no quarto escuro e sem ar, sofria por alguns dias e depois sentia o sol nascer dentro dela outra vez. Olhava-se no espelho, rímel, batom, protetor solar. Precisava de cuidados, cuidaria de si. Vestia-se, ia à praia sozinha e se divertia com pensamentos sobre como seria feliz morando ali com seu cachorro. Inventava viagens e sonhava com uma vida onde nunca mais lhe mostrassem a dor na carne viva, onde respeitassem sua dignidade, seu valor. Imaginava um príncipe encantado e seu sorriso desaparecia. Deixou de acreditar neles havia muito tempo, não compreendia porque eles ainda compareciam à sua imaginação fértil e romântica…

Então, por alguns meses, Carolina viveu entre o amargo do fel e a doçura de uma manga madura. Mais uma vez, mentirosa eu seria se dissesse que nem por um momento seu coração acelerou ao perceber a presença de Rodrigo ou ouvir a sua voz. Ainda sonhava com aquela risada gostosa que enchia os lugares e o seu peito de euforia. Não compreendia os motivos pelos quais seu coração permanecia preso àquele sentimento, àquelas poucas e raras lembranças. Mas não se culpava, permitia-se sentir ainda o amor que entregou a ele, não havia como matá-lo dentro de si, portanto, deveria aprender a lidar com ele. Mas até aprender, caiu algumas vezes. Deixou uma fresta pra que Rodrigo pudesse entrar e ele entrou. Ainda não sabia como trancar a porta e ainda não tinha coragem de jogar as chaves fora. Mas perdoava-se a cada vez que o “não” se prolongava por mais tempo do que da última vez.

Conheceu George talvez no exato momento em que descobriu ao que não podia acostumar-se. Era bonito, charmoso, alto e suas mãos estavam o tempo todo acariciando-a. Falava do futuro próximo, queria estar com ela todos os dias, mesmo que por pouco tempo. E a reciprocidade era irrevogável!! Há tempos sem ser tocada, Carol entregou-se por inteiro ao momento e deliciou-se nas carícias, beijos e, finalmente no sexo. Não era o melhor sexo que já havia experimentado, mas era bom o bastante e tinha carinho, tinha uma presença que Rodrigo jamais tivera. 

Logo, usarei o clichê, parecia que se conheciam de outras vidas. Mas não, nada era tão profundo assim e logo George mostrou a que veio - o que foi bom, porque poupou tempo e equilíbrio emocional. Carolina sempre foi dessas que avisa sobre perigos iminentes e com ele não foi diferente. Pediu que fosse mais ameno no falar, que fosse gentil também com as palavras. Mas ele disse que ela precisaria acostumar-se, pois isso era quem ele era. Pela esquina viu passar a primeira, a segunda e a terceira. Mas palavras atravessadas não ficam paradas na esquina, algumas entram com toda força porta adentro e, algumas vezes, tiram até o tapete do lugar. 

Sentou-se na beira da cama com ele dormindo ao seu lado. Ficou de pé e se vestiu. Guardou tudo o que era dela e se despediu. Não havia explicação para o que já estava anunciado. Não olhou para trás, mas, naquele momento, seu coração queria muito que ela olhasse. Seu coração queria muito que ela voltasse sobre seus próprios passos e se deitasse novamente ao lado dele. Seu coração queria acreditar que as coisas poderiam ser diferentes daquela vez. Mas, ao chegar em casa, encostou-se à porta do seu quarto e permitiu-se chorar por uns minutos. Não, seu coração não acreditava que seria diferente, não com George. Não com alguém que lhe pedisse para acostumar-se a algo que machucava, que fazia com que ela se lembrasse do modo como Rodrigo a tratava. 

Eu preciso ser razoável e dizer que Carolina não estava sendo melodramática. Ela apenas chegou em um momento que não conseguia engolir sentimentos desagradáveis. Na verdade, ela percebeu que não precisava, que podia ser leve e agradável relacionar-se com alguém, embora soubesse que jamais seria perfeito...

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