• Laura Assis

Ana, Carol, Carolina (parte 4) - As drásticas consequências do segundo relacionamento abusivo

Atualizado: 23 de Dez de 2020

Rodrigo estava ali fazia muito tempo, acho que desde que Carolina começou a se levantar. Seus primeiros passos para o lado de fora da bolha que criara para se proteger foram dados por causa daquele sorriso. Ele tinha o olhar atrevido, desses que só os cafajestes tinham, mas era cheio de delicadezas com ela e às vezes lhe trazia o café da manhã. Seu coração estava fechado, era certo como dois e dois são quatro, e Rodrigo sempre de pé à porta, espreitando, pedindo que ao menos ela lhe deixasse olhar como era por dentro. Por muitos anos evitou-o, embora o amor fosse crescendo dentro dela sem que ela percebesse ou permitisse. Um pão de queijo aqui, um sorriso ali… lhe trazia café, água… oferecia ajuda… brigava por ela.

Parecia algo grande demais e ela sentia fraquejar os joelhos diante da imensa proporção que aquilo poderia tomar se permitisse que ele entrasse. Sabia que após tantos anos morando na sua bolha, sozinha, não saberia lidar com mais um fracasso emocional e afastava-o. Batia a porta e lhe dizia para ir embora, não o deixaria ver como era lá dentro. Na verdade, ela já sabia que ele entraria com os pés sujos e deixaria uma bagunça que ela levaria anos para arrumar. Mas ele era o seu coração fora do peito. Era um cara cheio de defeitos, mas ela olhava para ele e só via aquele “Digo”, o cara que colocava um pão de queijo em sua mesa às sextas-feiras, o cara que cerrava os punhos segurando-se para não defendê-la na frente de todos.

De todo modo, Ana guardava aquele sentimento como se ele pudesse morrer se exposto ao tempo, protegia-o e a cada dia ele se tornava maior e a necessidade de deixá-lo dançar na chuva era urgente, era dolorosa e ao mesmo tempo era a coisa mais linda que já havia visto em sua vida. Mas não podia permitir que ele saísse, que se mostrasse. Assim como o amor, havia dentro dela a imensa suspeita, que gostava de chamar a si mesma de certeza, de que ele olharia lá dentro e desprezaria o que ela cultivou por tantos anos. Sentia que ele não sabia amar, que ele não sabia cuidar de nada e menos ainda cuidaria dela, do amor que ela sentia por ele.

Embora tentasse sufocá-lo, o sentimento não desaparecia e, após mantê-lo trancado por alguns anos, Carolina deixou que ele se molhasse um pouco lá fora. Neste momento, perdeu-se. Feito louco o amor foi atrás do que era sua casa: o coração fora do peito dela. Encontraram-se, o amor e o Digo. Havia muito mais naquele encontro, é verdade, mas Ana só via o amor e o Digo.

Claramente, para ele o amor era a última coisa a ser vista, o que ele queria era subir naquele sentimento para alcançar um nível de autoestima que estava longe dele, precisava daquele amor para mostrar ao seu ego que quem espera, sempre alcança. Rodrigo alcançou. Ana também.

Eram conquistas totalmente contrárias. Enquanto ela reconquistava a coragem de andar fora da bolha, ele conquistava o corpo que por algum tempo havia desejado. É curioso como a rejeição pode subverter as pessoas! Ela o havia rejeitado por medo, agora pagaria caro por isto, em nada suaves prestações.

A porta se abriu. Ela esperava que ele tirasse os sapatos e fizesse morada em seu peito. Ele entrou com os pés sujos de lama e não quis se demorar mais do que o tempo de satisfazer-se. Lá dentro tinha calor, mas ele era frio. As paredes eram feitas de amor, mas ele não se interessava pela arquitetura do lugar. Ele queria apenas entrar, aquecer-se por alguns momentos e sair de novo, em busca de tudo aquilo que lá dentro ele não podia ter. Obviamente, Carol não sabia lidar com aquele vai e vém; aceitava, mas seu coração gritava de dor e às vezes raiva.

Algumas despedidas vieram e ela se recolhia novamente em sua bolha até aquele sorriso aparecer novamente à sua porta. Se Davi a tinha partido em pedaços que ela nunca mais conseguiu colocar no lugar, Rodrigo jogou fora o que ainda restava dela. E embora ela fechasse as portas e janelas quando ele se aproximava, era inútil, pois o amor que ela sentia por ele lhe dava as chaves para entrar. Não podia mais suportar. Não podia mais suportar-se!!

Havia no armário uma caixinha que dizia “primeiros socorros”. Não cabia mais dentro dela tanta tristeza, tanto desprezo e o sentimento, maior do que o mundo inteiro, de ser insuficiente. Era como se dez elefantes descansassem tranquilos sobre o seu peito. Era impossível respirar. Não conseguia, embora procurasse dia e noite, encontrar o que havia de errado com ela. Hoje, agora, sabia que não era um ser a quem se pudesse amar verdadeiramente. Não tinha valores interessantes, sequer era um rostinho bonito, com um sorriso brilhante. Não era esculpida, sua risada não era doce e divertida ao mesmo tempo. Não conhecia lugares exóticos, nem falava outras línguas. Nunca havia visto a neve. Não era inteligente o bastante, bonita o bastante, sofisticada o bastante. Não era sequer esperta para perceber que tudo não havia passado de um jogo inescrupuloso para inflar o ego de alguém a quem ela havia dado um voto de confiança que não havia dado a ninguém durante muitos anos. Nunca havia se sentido tão desprezível e, então, olhou-se no espelho para certificar-se de que não havia mesmo mais motivos para continuar de pé. Muda, as lágrimas escorrendo naturalmente como um rio que avança para o mar, segurou nas mãos: “primeiros socorros”.

Como não havia pensado nisto antes? Aquela caixa esteve ali o tempo todo para acabar com seu sofrimento, mas lhe puseram na cabeça que tudo passaria e ela havia acreditado. Mas não mais, então abriu a caixa. Foi contando um, dois, três… vinte e dois… trinta e seis. Não tinha mais, mas deveria ser o suficiente. Não sabia se colocava tudo na boca e bebia um copo bem grande de água ou se ia bebendo aos golinhos, um comprimido de cada vez. Abriu um vinho e encheu uma taça, água não cairia bem naquele momento. Por via das dúvidas, absorveu em duas parcelas o alívio dos primeiros socorros, acompanhados de duas taças bem servidas de vinho. Desabou num choro quase inconsciente. a pressão já estava baixa. Lembrou-se do seu pai, do quanto ele lhe dizia que ela havia nascido para ser amada. Não conseguia enxergá-lo. Os batimentos foram desacelerando e, de olhos fechados, uma voz saiu do silêncio desesperador chamando seu nome. Era Rafael, era Deus, eram anjos, era seu pai… eram todas as pessoas que, de alguma forma tentaram ensiná-la a voar com suas próprias asas, tentaram ensiná-la seu verdadeiro valor e beleza… era ela mesma implorando por uma nova chance, implorando para que ela se olhasse de novo no espelho e pudesse enxergar o quanto era merecedora daquele amor… o amor próprio…

Quase sem forças, foi ao banheiro e despejou cada um daqueles primeiros socorros que havia colocado para dentro, pediu ajuda, foi salva. Nunca contou a ninguém por medo de olhares inquisidores que dariam como veredicto final a fraqueza e baixa autoestima. De volta à sua bolha estava segura, desde que não permitisse que Davis ou Rodrigos entrassem novamente em sua vida. O difícil era apenas discernir sobre quem era diferente disso tudo...

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