• Laura Assis

Ana, Carol, Carolina (parte 7) - Foi preciso aprender a não se desculpar por sentir

Atualizado: 23 de Dez de 2020

Percebeu que precisava aprender a lidar com seu sentir. Era certo como dois e dois são quatro que alguns caras que se aproximassem não saberiam lidar com sua intensidade. Alguns se afastariam, outros usariam esse detalhe de sua personalidade para se beneficiar de alguma forma. Mas pressentia que, no momento certo, alguém se encantaria por sua personalidade incondicionalmente sentimental.

Aprendeu rapidamente com Rodolfo que alguns homens poderiam distorcer totalmente esse traço dela, transformando-o em um defeito capaz de afastar dela qualquer pessoa. Por alguns segundos, ela realmente questionou a si mesma se sentir seria assim tão repugnante aos olhos dos outros e considerou a hipótese de tentar mudar, ser diferente por ele. Foram 40 dias juntos e ela percebeu que naqueles 40 dias ele encontrou nela mais defeitos e detalhes repulsivos do que qualquer outro que já havia passado por sua vida.

Logo ela que sempre se orgulhara de sentir pelos poros, através da respiração e acima da imaginação, chegou a pensar que talvez fosse uma criatura arrebatadoramente odiosa. A sua sorte era que, antes de Rodrigo e Davi, havia lhe acontecido Raphael. Não Rafael, que já comentamos por aí, mas Raphael - que ela costumava chamar de anjo da guarda. Ele havia lhe mostrado não apenas com palavras, mas com atitudes, exemplificações assustadoramente bem argumentadas e muito bem endossadas, que pessoas como ela eram dignas de amor e não podiam ser consideradas, em nenhuma instância, dignas de asco. Portanto, o que Rodolfo tentou fazer não surtiu efeito por mais de cinco minutos, talvez dez.

Mas é claro que Carol ficou triste mesmo assim! Se perguntava porque caras como ele agiam daquela forma. Ela havia sido gentil, carinhosa e extremamente compreensiva quando ele lhe contou seus defeitos e seus pequenos deslizes do passado. Ela se esforçava para ser agradável, gostava de ouvi-lo e por isso sempre procurava conversar. Tentava entender o mundo dele, assimilar seu modo de viver e pensar e pensava todos os dias em encontrar um caminho que os dois pudessem seguir juntos. Mas, uma pena, ele usou aquele argumento “nenhum cara vai conseguir ou querer ficar com você enquanto você for assim”. Naquele momento, ele estava aniquilado para Carolina. Começava ali, no ponto final daquela frase, a extinção de todos os sentimentos bons que nossa amiga nutria por ele. Ela nunca se julgou perfeita: sabia que ninguém era, muito menos ela. Mas acreditava firmemente que era perfeita para ele. Ele precisava falar, ela adorava ouvir.

Dos quarenta dias ficaram as lembranças da meditação no sofá, das rosas vermelha e amarela, dos bilhetinhos escritos à mão e enviados por foto… e a doce, harmônica e tênue lembrança do quanto ela quis estar com ele.

Ana havia aprendido muito bem a lição de que se em algum momento lhe dissessem que ela não era boa o suficiente, o melhor era partir, pois ela sempre dava tudo de si em relacionamentos. Portanto, se apesar de toda a entrega e devoção oferecidas, Rodolfo insistia em tratá-la daquela maneira fria e rigorosa, o melhor era seguir viagem. Afinal, Raphael sempre lhe dizia que era muito melhor ter os dois pés na estrada novamente do que tê-los balançando ao vento da insegurança e da imaturidade.

Assim se fez forte e erradicou de sua vida aquele abatimento que caía sobre ela todas as vezes que pensava em começar de novo. Abriu as janelas da alma, colocou girassóis no parapeito e esperou a tempestade passar para avistar novamente o sol. Não demorou muito e seu coração acordou exuberante, totalmente dominado pela vitalidade como se jamais tivesse conhecido o esmorecimento. Era um passo dado sabiamente. Carol estava crescendo e se reconhecendo. Já não se deixava confundir, já não precisava se encontrar no espelho para amar aquilo que era. Era incontestavelmente uma nova mulher, um pássaro com asas coloridas e vibrantes, um cavalo marinho, uma pérola e uma ostra ao mesmo tempo. Era tudo. Era bela e imperfeita. Era linda em suas imperfeições. Era “apaixonável”, era apenas um segredo a ser descoberto.

Alguém se sentiria bem em sua presença avassaladoramente indelével, invariável e infinita. Alguém acharia charmosa sua velocidade para as coisas do dia a dia, tentaria ajudá-la com as preocupações desnecessárias e nada urgentes. Alguém se aproximaria e enxergaria suas flores, apesar de seus espinhos; a olharia com carinho e compaixão quando ela se desequilibrasse. Alguém que teria maturidade bastante para não esperar por um pedido de ajuda quando a necessidade fosse clara e evidente; que se interessaria por ela, pelas coisas que ela escrevia e sonhava. Alguém tão perfeitamente cheio de defeitos que ela teria que passar por cima todos dias com muito prazer; por quem ela montaria um quebra cabeças infinito na tentativa de encontrar estradas nas quais pudessem viajar juntos. Alguém que lhe colocaria os pés no chão e a levaria ao céu; que lhe traria um girassol no dia dos seus anos. Alguém por quem ela perderia toda a compostura e seria totalmente comedida ao mesmo tempo. Alguém que admiraria tudo o que ela era, apesar de todos os erros que a compunham. Alguém que a faria se sentir como no primeiro passeio de bicicleta, dominada pela emoção de não saber e ainda assim querer.

Era uma questão de tempo. E agora ela sabia disso!

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