• Laura Assis

Ana, Carol, Carolina (parte 6) - Não é perda quando vai embora alguém que você nunca teve

Atualizado: 23 de Dez de 2020

A ponta de sua língua sempre tocava a taça antes mesmo de sentir o gosto do vinho. Gostava de sentir o álcool por suas narinas adentro antes mesmo de experimentar a acidez e o corpo daquela bebida que adorava. Suas sextas abrigavam ainda o mesmo velho ritual de suas vidas passadas: abria o vinho, deixava-o respirar. Depois respirava-o e deixava que ele se derramasse em sua corrente sanguínea como um rio que flui para o mar sem demora, sem obstáculos a contornar.

Na maioria das vezes em que abria um vinho, abria também seu coração. O ritual era sempre seguido à risca. Banho, vinho, respiração, som, lágrima contida. Era toda feita de sentimentos, incompreensivelmente feita de sentimentos. Sentia em cada um de seus poros, em cada gota de sangue, em cada átomo de seu corpo. Sentia. Sentia. Sempre sentia, absorvia o ar, o cheiro, o gosto. Guardava o desejo, escondia-se dele. Não sentia nenhuma necessidade além dos gestos, palavras e formalidades às quais não era imposta, mas desejava ardentemente. Crescia olhando para frente, mas não conseguia cortar o cordão que a mantinha ligada ao passado, embora o passado já se parecesse tão desligado dela. Doía. Doía-lhe no mais aprofundado da alma sentir-se esquecida, superada. Mas ele lhe havia quebrado em trinta e seis pedaços e exigia que ela continuasse funcionando. Saudável, racional, com amor. Ela era seu brinquedo. Quebrava-lhe, mas ela deveria servir enquanto quisesse estar por perto. Ou seria mantida longe.

Sempre sentiu a necessidade de alcançar a perfeição para servir-lhe enquanto estiveram, digamos, juntos. Agora, distantes, era ainda mais necessário que ela fosse madura o bastante para deixar para trás o que passou sem jamais tocar no assunto. Jamais poderia justificar um de seus arranhões com um dos cortes que Rodrigo lhe havia causado. Sempre soube que ele não lhe queria ao lado, mas por perto para lhe inflar o ego, assim como uma criança que não pode brincar com todos os brinquedos ao mesmo tempo mas não empresta, não abre mão de nenhum. Ele tinha o seu coração e a ele bastava o sentimento de possuir alguém, de tê-la ali à disposição - mesmo que não fisicamente. O que ele sugava dela não era o amor, mas a veneração que ela nutria, o desejo que sempre tinha de que ele ousasse um pouco mais, de que ele pedisse um pouco mais de espaço em sua vida. Mas ele era ser completo que não necessitava de nada que viesse dela e lhe custava caro demais a compreensão dos fatos reais. Ana lia das palavras a verdade e aquecia-se no morno das ilusões que tecia sozinha, sem mesmo precisar de um movimento vindo de Rodrigo. Suas ilusões, assim como seus castelos, criavam-se sós e desmanchavam-se na escuridão que era não ser reconhecida como (achava que) merecia. Talvez não merecesse. E novamente íamos nós, tentar recolher de Carol os pedaços no chão, mostrar a ela quem realmente havia no reflexo do espelho. Mas para ela não era tão fácil encontrar no espelho das águas um Narciso por quem pudesse se encantar; acreditava mil vezes mais numa Carolina triste, vazia, desmerecida e pobre. Veja bem, era demasiadamente triste ver Carolina ilustrando este retrato triste e não poder fazer nada por ela, apenas ser coadjuvante, observadora daquela atuação magistral e verdadeira de amor e paixão por alguém que não lhe merecia nem o mais vil dos pensamentos. 

Mas eu lhe pergunto, o que se há de fazer quando os amigos tornam-se cegos, surdos e totalmente incompreensíveis diante da vastidão de sentimentos que os absorve e penetra ao mesmo tempo?

5 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
 

Juiz de Fora - MG

  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter

©2020 por Veredas Sentimentais. Orgulhosamente criado com Wix.com