• Laura Assis

Ana, Carol, Carolina - Voando perto do Sol

Carolina estava crescendo. Era um fato incontestável que Carol chegaria ao seu grande momento, à sua epifania tão ansiosamente esperada - não por ela, mas por aqueles que a amavam. Talvez, secretamente, seu coração também esperasse por aquela revelação grandiosa e significativa. Depois de Rodolfo, Ana encontrou a calmaria. Embora tivesse se apaixonado por alguém que não se apaixonou por ela, ele estava ali - sempre. Era quietude, remanso sem fim estar nos braços dele. Era livre para ser quem era, para ser quem gostava de ser. Não sabia se duraria, se em algum momento ele chegaria a sentir algo por ela. Não sabia se teriam tempo para isto, se seria o bastante por muito tempo. Não sabia de praticamente nada, mas havia chegado a um determinado ponto em que não se importava em não saber. Era até gostoso não saber, não tentar manter o controle sobre o tempo e não calcular tudo em planilhas meticulosamente bem feitas. Com o passar dos dias percebeu que aquela quietude, aquela ausência de paixão começava a fazer bem a ela. Até o seu sentimento, que sempre lembrou um tufão, começou a se comportar como uma brisa leve de verão que refresca sem bagunçar os cabelos...

Alguns hábitos se reforçaram em nossa amiga: meditação, música clássica acompanhada de chá (ou vinho, embora muito raramente agora escolhesse esta opção) e um bloco de notas em branco onde pudesse colocar todas as suas palavras. Não era uma artista, mas possuía a alma de uma. Deleitava-se em sua própria companhia e brincava com as palavras até rir-se sozinha - ou suspirar contendo uma lágrima. Carol sempre soube que preferia a solidão a uma vida sem paixão, mas achava impossível viver sem as duas. E percebeu que poderia viver sem paixão por algum tempo e que solidão não era tão ruim assim. Muito pelo contrário, a solidão até que era uma boa amiga agora que havia trocado a enologia pelo mundo dos chás, incensos, velas e orações. Os livros voltaram a ser seus melhores amigos e o moleskine em sua cabeceira suspirou de alívio ao se sentir útil novamente.

Começou a olhar para o passado com compaixão por si mesma, obtendo a certeza de que cada escolha errada contribuiu incomensuravelmente para o seu crescimento emocional. Ana estava se tornando uma nova mulher a cada amanhecer, a cada página lida e escrita de sua nova história. Ela que sempre perseguiu o amor, começava agora a se apaixonar por sua própria personalidade indelével, invariável e infinita. Começava a silenciar todos os gritos dentro de si apenas ouvindo-os, um de cada vez. Se deu atenção, se colocou no colo e ouviu atentamente cada um de seus arrependimentos e medos. Se perdoou. Se encorajou.

Criou o hábito de sempre escrever para ela mesma antes de dormir e ler como se fosse outra pessoa ao acordar. Percebeu que à noite sentia-se sempre mais aberta aos sentimentos e que ao amanhecer mantinha-se observadora, inquieta e, ao mesmo tempo, esperançosa; portanto, passou a buscar dentro de si a sua essência. Não podia mais fugir de si mesma apenas para viver uma vida comum. Precisava sair da sua zona de conforto para encontrar-se em seu interior, descobrir o que realmente importava e não mais se esforçar para caber em padrões pré estabelecidos ou quebrar paradigmas levantando bandeiras às quais não era verdadeiramente fiel.

Sabia o que fazia seu coração vibrar, sempre soube. Nasceu e cresceu apaixonada, mas não queria ser feliz apenas sob a redoma de uma paixão. Queria ser verdadeiramente livre e se encontrar maravilhosa no espelho independente do que estivesse escrito em seu coração. Encontrou suas verdades mais sutis, suas mentiras mais sagazes. Porque mentimos pra nós mesmos sobre o que nos faz feliz apenas por medo de nos percebermos em uma realidade completamente distinta de tudo aquilo em que realmente acreditamos. Lembrou-se da frase de Nietzsche que dizia que o que não nos mata, nos faz mais fortes. As cortinas foram caindo pouco a pouco e Carol, envolvida num sentimento quase letárgico, abriu seus olhos para si mesma, para o que havia dentro de si. Era um espírito grandioso, uma alma apaixonada pela vida e pelas pessoas. Era uma mulher prestes a voar perto do sol, deixando queimar todas as mentiras, todos os erros do passado, todas as culpas e desilusões.

Num vôo majestoso, Ana, Carol e Carolina se encontraram, deram as mãos. Voaram juntas e pousaram, em fim, em paz. Era o bastante para si mesma. Aprendeu que a paixão viria em breve e deveria somar à sua vida e não se tornar a sua vida. Teve o mais perfeito vislumbre do que estava por vir, agora que havia crescido e compreendido que enquanto não se amasse, não poderia ser amada por ninguém, não poderia amar ninguém.

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