• Laura Assis

Eu não limpo mais a casa às quintas

Hoje eu limpei a casa, como toda santa quinta-feira. Hoje foi o pior dia desde que você partiu. Ele me trouxe à memória, com todas as cores, aromas e sabores tudo o que vivemos na nossa última quinta-feira juntos. Parece que uma fotografia desse momento ficou registrada na minha memória, tão perfeitamente retratado nosso último dia feliz.

Então, hoje eu limpei a casa, como toda santa quinta-feira. Mas quando eu passava pela cozinha não tinha ninguém no meu caminho e, de repente, a casa parecia tão limpa, tão enorme, tão inutilmente cheirosa.

Eu me apoiei na bancada com a minha taça de vinho em uma mão e o celular a outra. A esperança era de olhar o celular e ter alguma mensagem do tipo “cheguei”, que desmentisse toda essa realidade que eu vejo agora. Que me fizesse acordar do sonho ruim que foi perceber que nosso amor era uma luta que só eu lutava, era uma carta linda de amor que só eu lia, que só eu escrevia. Que me fizesse perceber que, de repente, você não tinha ido embora, que só estava ali limpando o quarto ou tomando seu banho enquanto eu terminava de colocar as coisas no lugar.

Hoje eu limpei a casa e foi o primeiro dia que eu chorei desde que você se foi, porque até então eu não podia, não conseguia deixar as lágrimas livres. Era como se, ao chorar, o restinho de você, a parte boa, fosse me deixar de vez, fosse partir para nunca mais, cair no esquecimento e ser enterrado a sete palmos, onde eu nunca mais pudesse te encontrar.

Eu tomei um gole bem grande de vinho, aquele vinho forte, para tentar não encher a taça com as lágrimas que fluiam de mim para o rosto, para o pescoço, molhando a gola da minha blusa e formando um rio, que cantava uma canção triste. Hoje foi o primeiro dia que eu chorei desde que você se foi, porque, de alguma forma, eu imaginava que minhas lágrimas contidas mantinham você em um lugar onde eu ainda pudesse acessar, de onde eu pudesse resgatar a sua presença tão divertidamente doce e tranquilizadora.

E, pra mim, isso é tão profundo, saber que você não se importa, que nunca se importou, que eu comecei a anotar todas as perguntas em um bloquinho mental, na esperança de que eu pudesse me esquecer de todas elas ao queimar, também mentalmente, aquele bloquinho que, a esta altura, representaria toda a tortura que foi ver você partir sem me explicar onde foi que acabou, quando foi que deixou de existir… ou se um dia existiu.

Hoje é quinta-feira e eu limpei a casa vestida de preto, porque meu coração agora está experimentando um luto diferente, novo pra mim. Eu já matei muitas pessoas dentro de mim, para sobreviver a elas. Mas eu nunca matei um sentimento, como estou matando este pouco a pouco agora, com cada uma dessas lágrimas. Um sentimento que eu esperei, que eu cavei até no fundo para encontrar, porque ele havia se escondido tão profundamente dentro de mim, que eu não podia mais encontrá-lo antes de abrir a porta para você pela segunda vez.

Hoje é quinta-feira, mas amanhã é sexta e as sextas costumam ser gentis com aqueles que sofrem por amor. Talvez eu espere o relógio marcar meia noite, como se fosse ano novo, para ver a magia acontecer dentro de mim, para ver o novo dia levar embora essas lágrimas, esse amor… e talvez eu nunca mais limpe a casa às quintas.


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