• Laura Assis

O síndico (ou "A estrela cadente")

Havia pouquíssimo tempo que se mudara para o prédio novo do final da rua. Era algo provisório, pois precisava de um lugar para morar até que a reforma de seu apartamento ficasse pronta. Não se deu ao luxo de percorrer bairros sem fim, o primeiro canto sossegado lhe atraiu como um imã e lá estava ela subindo com todas as caixas, com tudo o que ela precisava manter a salvo da poeira.

Naquela noite de sexta fugiu da rotina, mesmo sem estar muito inspirada para qualquer tipo de aventura que a vida lhe pudesse reservar. Encontrou as amigas e, para sua surpresa, ele estava lá. O síndico. Aquele sorriso maroto escondido atrás de uma voz séria e encantadora. Os cabelos que cobriam um pouquinho da testa, as mãos grandes e o olhar firme, intenso, profundo. Sentaram-se separados, porque o destino adorava contrariá-la, principalmente quando ela enfiava algo na cabeça e aquele homem... não lhe saía dos pensamentos desde que ouvira falar nele e vira sua foto na circular do condomínio.

Não era em nada transgressora, mas sentia-se tentada, quase que diariamente, a cometer alguma transgressão para que o visse à sua porta. Abriria de lingerie e convidaria para entrar. Sonho! E ria-se alto pela escada acima todas as vezes que pensava nesta cena. Não era esse o jeito dela, mas a vontade que tinha, de tê-lo em seus braços, deveria ser algo completamente fora da normalidade para o desconhecido. Mas não para ela, que tinha dentro de si toda a intensidade das ondas do mar em estado de ressaca, toda a volúpia de mil cortesãs e, ao mesmo tempo, toda a paixão de seiscentas e setenta e duas mocinhas apaixonadas.

Subia a escada e sutilmente olhava para a câmera, supondo que ele pudesse estar ali esperando que ela chegasse do trabalho. Em seus planos ideais, ela chegaria com todas as compras de todas as lojas do shopping e ele se ofereceria para ajudar a entrar em casa. Ela lhe ofereceria um suco, conversariam a tarde toda e combinariam uma saída naquela mesma noite, onde ela usaria seu vestido vermelho justo, com fenda na lateral e soltaria os cabelos em grandes ondas quase vermelhas, como o sangue que corria quente em suas veias quando pensava nele. Mas, nem sempre o ideal acontece. Ou melhor, quase nunca!

Enfim, naquela noite que mal queria sair de casa e, portanto, estava sem o seu vestido vermelho com fenda lateral, encontrou-o. Paula, uma das meninas o conhecia e o havia convidado, já sabendo do interesse que poderia existir entre os dois. O que nem Paula, nem o síndico sabiam, era que Lise já esperava por ele desde aquela circular... desejava ouvir sua voz – por vezes sentiu vontade de interfonar com qualquer desculpa banal.

No final da noite, quando todos pareciam cansados e dispostos a se despedir, Lise mencionou que estava sem carona e, um pouco constrangido, o síndico lhe abriu a porta do carro. Subiram juntos a ladeira até o prédio e, ao parar no portão, tudo o que ela queria era dizer algo engraçado ou inteligente ou até mesmo inocentemente doce, qualquer coisa que fizesse a conversa ficar tão agradável que ele não quisesse mais descer daquele carro. Sentada ao lado dele, sentia tenso cada centímetro de pele do seu corpo, o coração batia mais lento e silencioso do que o costume, por medo de atrapalhar qualquer movimento. Era demais estar ali, mas ao mesmo tempo era tão pouco! Queria mais...

Subiram as escadas conversando quando, trocaram um abraço tímido de despedida e ele, subitamente lhe disse:

- Ei, Lise, ouço você cantar enquanto cozinha, você tem um ótimo gosto musical!

Ao que ela não perdeu tempo e lhe convidou para ouvir algo e tomar um vinho na varanda. Ele disse que precisava entrar em casa e alimentar o gato, aceitava o convite e iria em seguida. Ela deixou a porta aberta e entrou correndo. Olhou-se no espelho, limpou o batom e certificou-se de havia mesmo um bom vinho na geladeira. Colocou a música, sentou-se no sofá e começou a rabiscar algo sobre aquele momento no moleskine surrado que ficava pelos cantos da casa com uma caneta amarrada à ele. Duas batidas leves na porta, oitos passos e ele estava ali sorrindo de pé na frente dela, que olhava e sorria e sorria e olhava...

Tomaram vinho, riram muito, havia uma certa magia em torno dele, que lia os versos e pequenas histórias naquele moleskine ao som de Ella Fitzgerald e se dizia encantado por aquelas palavras. E ela desejando que todo o encantamento fosse por ela, pelos olhos, pelo cabelo dela... até mesmo pelo vestido preto que ela vestia, mas que fosse por ela e que não acabasse nunca. Ele repetia as palavras que ela havia escrito e lhe fazia perguntas, o sofá ficando cada vez menor e as palavras jorravam das páginas e de suas bocas...

Ela estava tão atormentada (de um jeito bom) com aquela presença – não era um cara qualquer, era o síndico – que entornou o vinho e precisou se trocar. Enquanto se trocava, o observou pela fresta na cortina do seu quarto, suas palavras nas mãos dele... parecia um sonho e, ao mesmo tempo, tinha no peito o coração de oitocentas e quarenta e quatro adolescentes apaixonadas e no rosto o sorriso fácil de uma mulher certa do que estava prestes a fazer.

Sentou-se, novamente ele se disse encantado e mais algumas coisas, ao que ela lhe respondeu com um beijo intenso e forte, um pouco apaixonado, um pouco cheio de puro desejo. Fazia algum tempo que ninguém a tocava – nem a pele, nem o coração. E foi vulcão em erupção, mar em estado de ressaca, vendaval que muda tudo de lugar, deixando todos perdidos e desnorteados. Avassalador. Sem receio, sem pudor. Às quatro da manhã estava sentada no colo do sindico, beijando-o como se ele nunca mais fosse sair de sua boca, ao que ele respondia beijando-a ainda mais e, meio confuso, levou-a para o quarto.

Tocavam-se, sentiam-se, ela o desejava mais e mais e sua mente girava, delirava de desejo e implorava por tudo o que ele pudesse fazê-la sentir. Acordaram com o sol no rosto, três horas depois e ficaram conversando, os olhos sorrindo – ambos. Ela não sabia se ele sorria por sorrir ou apenas lhe sorria de volta, mas o fato é que ela não conseguia parar de sorrir, era quase preciso fechar os olhos e cobrir o rosto com as mãos. Duas mil duzentas e vinte e duas adolescentes num peito tão pequeno!! Era tão deliciosa a sensação...

Passaram o dia juntos, sol, piscina, mergulhos e beijos... dormiram juntos outra vez, acordaram, curtiram a noite. Não paravam de se tocar, ela sentia as mãos dele vindo atrás dela, os lábios dele em seu pescoço... para ela, era nítido que ainda se queriam. Entretanto, pela segunda vez, viu a madrugada chegar ao lado dele e nada foi tão mágico. Despediram-se no hall e cada um foi para o seu apartamento. Na segunda, ele foi trabalhar e, como havia de ser, ela também. Não houve um adeus, assim como não houve uma promessa de continuidade daquela história que agora, escrevendo, me ocorre que poderia se comparar à beleza de uma estrela cadente, que de repente desaparece. E, embora não houvesse a promessa de que aquilo poderia se repetir, ela esperou muito que acontecesse, ela quis, ela chegou a beijá-lo enquanto ele dormia e pedir aos anjos do céu que permitissem que aquilo fosse muito mais do que apenas vinte e quatro horas. Mas não foi e, na verdade, diante do silêncio sepulcral na despedida, percebeu que não havia acontecido ali nenhuma mágica. Não havia acontecido nenhum milagre dos sete tempos e ela não havia sido aquela mulher de infindável encanto...

Vestiu-se, comeu e trabalhou todos os dias daquela semana. Na sexta, entretanto, não teve vontade de ir para casa. Não queria se lembrar dele e de como havia terminado a sexta anterior – uma mágica que não era nada mais, nada menos do que a realidade de todos os dias: pessoas que se encontram, se envolvem de certa forma e depois se vão, sem aprofundar-se em nada... mas naquele caso, ao menos uma das partes queria aprofundar-se em todos os sentidos, ângulos, momentos, movimentos possíveis – e este alguém não era o síndico.

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