• Laura Assis

Pra quem você daria (ou por quem tomaria) as pílulas da reciprocidade?

Ah! O amor...

Chega quando menos esperamos e nos dá um "olé". Até aqueles que prometem a si mesmos não se apaixonarem nunca mais, acabam um dia sendo ludibriados por sentimento tão vivaz e que nos deixa tão vulneráveis ao toque, ao olhar, às sensações que o outro provoca em nós.

Mas algumas vezes amamos sem ser correspondidos - ou somos correspondidos de uma maneira que não é a que esperávamos. Claro exemplo disto é quando nos envolvemos em relacionamentos que não nos fazem feliz mas que, ao mesmo tempo, não conseguimos nos desligar com facilidade.

Dia desses ouvi uma história dessas de ponto de ônibus, a garota reclamando que o seu namorado sempre preferia estar com os amigos, a deixava só vários dias da semana para sair com "os caras". Ela ainda afirmava à sua confidente que tinha certeza dos sentimentos dele por ela, que sabia que a amava mas que tinha uma maneira particular de pensar sobre relacionamentos. Eu, que nada tinha a ver com o assunto, formulei minha opinião e guardei-a para mim, visto que era apenas uma transeunte enxerida prestando atenção às conversas alheias.

Ela continuava relatando que seu amado tinha o pequeno vício do carteado, que saía diversas vezes para jogos intermináveis na companhia dos amigos. A pobrezinha não suportava esse tipo de coisa, mas o amor era tanto que fingia não perceber a gravidade do assunto. Queria-o feliz, não importava como. Algumas vezes ela queria vê-lo, chamá-lo para o cinema, mas ele já havia combinado um jogo com os amigos e, infelizmente, não era possível desmarcar.

Por mais que a moça tentasse, se esforçasse para não se ressentir, não era possível forçar o sorriso e engolir que novamente fora preterida. Acabavam sempre em brigas, desentendimentos que chegavam a durar dois a três dias. Depois voltavam às boas, era seduzida pelo aconchegante ato de fazer as pazes e muitas coisas ficavam por dizer.

Meu ônibus chegou e, vejam bem a que ponto chega a curiosidade de uma escritora de meia tigela: deixei-o passar! Quis ouvir mais um pouco daquela história e, quem sabe, adivinhar o final...

Continuava a pobrezinha, inconsolável, relatando que sempre que voltavam, prometiam-se mundos e fundos, coisas tais como ele abrir um pouco mais de espaço para ela, dar-lhe um pouco mais de atenção... ela suplicando por ser importante na vida do rapaz. Ora! Vejam só! Estava tão perdidamente apaixonada que suplicava ser importante. Tive vontade de pegá-la em meus braços e cuidar dela por alguns minutos. Depois, então, diria a ela que jamais suplica-se pela atenção do outro, jamais pede-se que seja importante...

Explicaria a mocinha que coisas como estas são oferecidas a nós de espontânea vontade pelo outro, ou se é amado, ou não. Ou somos importantes e queridos, ou não. E nem podemos culpar o outro por não nos achar importante. Conosco é da mesma forma, quantas vezes pensamos naquela pessoa magnífica que arrasta um bonde por nossa causa e desejamos gostar dela à mesma proporção? Quantas vezes nos envolvemos com pessoas que sabemos ser perfeitas para nossas vidas mas não conseguimos amá-las como elas merecem? Coisas como estas são, ou não são. Não se pede. Não se suplica. E se fosse ao contrário? Se ela não o achasse a pessoa mais importante da vida dela, conseguiria forçar seu coração, seus sentimentos? Não sou muito fã de Clarice, mas concordo sempre que me dizem que a mulher entendia das coisas do coração. Quando ela disse que "o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição" ela resumiu muito bem tudo o que eu gostaria de dizer àquela pobre moça do ponto de ônibus. Eu só acrescentaria que não só o amor, mas sentimentos como o bem querer e valores como o respeito, também não são impostos ou induzidos...

Sentimentos são como a fome: ou temos, ou não. Não há um meio - pelo menos eu desconheço - de induzir o ser humano à fome. Para outras coisas têm-se remédios: para induzir ao sono, para induzir à tranquilidade. Infelizmente para nossa amiga, não inventaram nenhum remédio ou poção que possa induzir à reciprocidade aquele a quem tanto quer bem.

Se eu fosse a sua confidente, lhe daria o mesmo conselho que repito a mim mesma tantas vezes. A vida é feita - toda ela - de escolhas. Ela tem a faca e o queijo na mão. Pode escolher entre partir em busca de um novo amor, alguém que talvez lhe ofereça um pouco mais ou pode aprender a viver com o que este moço displicente pode lhe oferecer. Sim, veja bem, eu disse "pode" e não "quer". Porque temos que entender de uma vez por todas que o amor não é só aquilo que estamos habituados a oferecer ao outro. O outro tem sua própria maneira de sentir e demonstrar seus sentimentos. A escolha é sempre nossa. Podemos buscar algo que nos faça ainda mais feliz ou permanecer e aprender a lidar com as incapacidades de quem está ao nosso lado.

É importante colocarmos em nossas cabeças que quando se trata de sentimentos, nunca é culpa de ninguém se não há reciprocidade. Ninguém é culpado por amar enlouquecidamente, assim como não podemos culpar o outro por não amar... Nem tudo é questão de escolha. Ao menos até inventarem as sonhadas pílulas da reciprocidade. Aí, quando isto acontecer, vai ser moleza!! Será?

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