• Laura Assis

Quando nem os príncipes são príncipes

Assisti “A Bela e a Fera” mais de cento e oitenta e quatro vezes. Decorei as músicas, as frases, cada perspectiva de cada personagem. À minha volta, lindas princesas da Disney e seus príncipes encantados. E eu cresci acreditando, esperando ansiosamente pelo meu príncipe encantado, aceitando que ele poderia vir na forma de fera e eu teria que ser paciente até que ele se transformasse em príncipe. Mas eu cresci. Eu cresci e percebi que feras não se tornam príncipes assim como meninas não são princesas da Disney.

Eu nasci nos anos oitenta. Em oitenta e quatro. Me ensinaram que os homens amariam as mulheres. E algumas vezes, eles amam mesmo. Mas quando eles não amam, não há espelho mágico, não há fada madrinha que faça brotar o amor como num lindo passe de mágica. Na minha pré adolescência todas as minhas amigas e eu - definitivamente eu - sonhávamos em viver o “felizes para sempre”, mesmo que sem castelo e sem cavalo branco. É uma pena - e eu digo por mim mesma - que não nos tenham ensinado que nem mesmo os príncipes e princesas vivem felizes para sempre. Que muitas vezes - na verdade, eu diria na maioria das vezes, nem mesmo os príncipes são príncipes. 

Eu ainda me lembro do meu olhar admirado, vidrado na tela da TV pequena da sala na casa dos meus pais, assistindo ao funeral de Diana. Eu não entendi como aquela princesa acabou morta daquela forma. Ela não foi salva por seu príncipe, ela não viveu um conto de fadas. Ela não morou para sempre em um castelo rodeado de flores e “Bambis”, pombinhas brancas e céu azul. Eu tinha apenas treze anos e eu não sabia quem era Charles, quem era a Rainha da Inglaterra. Mas meu coração ficou partido quando eu assisti ao funeral de uma princesa onde, a todo momento, se ouvia sobre sua imensa tristeza e dor. Gente! Espera aí! Ela era linda, loira, dos olhos azuis e nada mais, nada menos que uma princesa. Uma PRINCESA! Meu mundo caiu…

A esta altura da vida eu já tinha os meus sonhos, minhas fantasias românticas. Talvez ninguém saiba, mas meu coração se partiu pela primeira vez ainda no pré escolar. Ele se chamava Felipe e mudou de escola. Mas eu ainda podia encontrar o meu príncipe e essa separação não foi nem de longe catastrófica. Só que eu não entendia como uma princesa, casada com um príncipe DE VERDADE podia ser infeliz! Aí eu quis saber porque é que aquela tal “Lady Diana” não tinha nada quando ela tinha tudo o que a Disney me ensinou que era preciso pra ser feliz.

Diana nunca foi plebeia, isso temos de convir. E se você não sabe nada sobre ela, deveria saber ao menos o mínimo. Ela era uma menina quando conheceu o Príncipe Charles. Aos dezenove se casou com ele, esperando viver um conto de fadas britânico em plena vida real. Mas ela não sabia que seria reduzida a “princesa chorona bulímica abandonada pelo marido poucos dias depois de se casar”. E não estou falando poucos anos depois. Estou falando de DIAS. 

Ela não era nada, na realidade, além de uma peça importante naquele jogo real ao qual fora levada para fazer parte apenas como enfeite. Era uma peça de teatro e ela era a atriz principal apenas quando o povo estava acenando para ela e ela sorrindo de volta - quebrada por dentro. Portas do castelo adentro, era ela e só ela vislumbrando aqueles jardins, o pé direito alto do castelo e sua arquitetura sem igual. Solitária, frustrada, abandonada e traída por seu príncipe. Eu chorei. Eu chorei porque deveriam ter ensinado a ela que algumas vezes nem os príncipes são príncipes. Eles são apenas homens, assim como tantos outros. Que erram, que abandonam, que machucam - nem sempre na carne, mas machucam. 

Eu chorei porque, assim como eu, Diana acreditou que amar era a única condição, a única prerrogativa para ser amada de volta com toda a dedicação e devoção possíveis. Eu chorei porque fui treinada, cresci para encontrar um príncipe. Mesmo sem cavalo branco, mesmo sem castelo. Talvez você não entenda o que eu quero dizer com príncipe, mas eu posso explicar. Obviamente, eu posso explicar que um príncipe não precisaria de coroa para que eu o amasse. Mas ele seria gentil, carinhoso, me protegeria  de tudo e jamais, jamais me machucaria. Jamais seria leviano, traidor ou violento. Não mentiria. Não me enganaria. Não me humilharia. Acima de tudo, não me humilharia, como Charles fez com Diana.

Então, eu parei de chorar e percebi, ainda com umas lagrimazinhas escapando, que eu queria ser “Diana” quando crescesse. Que eu queria pegar toda a dor que o mundo me fizesse sentir e devolveria a ele em forma de amor, de fé e caridade. Que eu seria luz na escuridão de alguém. Que eu seria consolo para alguém inconsolável. Que eu seria a mão estendida a alguém que se cansou de ter as portas fechadas em sua cara. Eu seria muito mais Diana do que Branca de Neve. Eu transformaria toda a dificuldade, toda a bulimia, todo o abandono na melhor energia que eu pudesse emanar para quem estivesse ao meu redor.

E eu me resignei porque durante a minha vida, talvez por mais de uma vez, eu encontraria meus “Charles” e alguns deles não abririam mão de suas “Camillas” e eu entraria em uma fase “Princesa Diana”. Mas eu me consolava sabendo que, depois de princesa, eu seria a “Lady Diana” corajosa e forte sobre a qual eu tanto li nesta minha vida. Eu sempre me consolei sabendo que ela foi como a própria fênix, renascida das cinzas para trazer ao mundo sua luz, sua força e coragem, para contagiar o mundo - mesmo que por poucos anos - com seu amor incondicional por todos aqueles que sofrem, por todos aqueles que precisam de amor. 

E assim, eu me fiz corajosa para abandonar a dor, para abandonar a posição de “princesa chorona bulímica abandonada” e assumir a posição de fênix, que se levanta, abre as asas e voa sobre todos os seus fracassos e derrotas, buscando jamais se esquecer do que aprendeu com eles, mas deixando para trás tudo aquilo que a fez queimar. Porque muitas vezes, nem os príncipes serão príncipes, mas você não pode, não merece morrer por isto.

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