• Laura Assis

Que a chuva leve esse amor...

Naquela noite foi impossível dormir. Banho quente e uma taça de vinho não iriam ajudar. Calçou umas botas muito contrariada, já que estava calor. Mas a chuva não dava trégua e às vezes sentia que chovia dentro dela. Não sabia muito bem para onde iria, aquele bar de sempre estava fora de cogitação, pois havia levado a garota lá e a última coisa que queria era se lembrar dela e de sua irritação que tanto a afetava. Pensou por alguns segundos, pegou bolsa e guarda chuva e penetrou na chuva fria, abandonando o guarda chuva alguns metros adiante. Precisava se molhar. Precisava daquela água fria que lhe batia com tanta força no rosto. Decidira: não iria à lugar algum, iria apenas andar sem rumo enquanto ordenava os pensamentos. Depois, com certeza, um banho quente e aquela taça de vinho que ficou sobre a mesa cairiam bem. Caminhou cerca de um quarto de hora e já tinha bem delineado o motivo daquele inquietação. Era ele. Aquele garoto que lhe virava a cabeça todos os dias. Um dia, quando acordava, ele estava ali tão gentil e suave quanto uma pétala de rosa, doce como um caramelo indiano, daqueles que explodem na boca quando chegam ao fim. Isso! Era explosão também. Bastava que algo o contrariasse, bastava que lhe dissesse algo que não o agradava e ele se tornava amarga feito fel e o bichinho acuado se transformava em uma fera de quem tinha medo, muito medo. Encantava-a e assustava-a. Era para ela yin-yang. Quente e frio. Verão e inverno. Paixão e loucura. Amor, depois dor. Aquecia e esfriava aceleradamente e fazia-a sentir-se cega, impotente. Desnecessária. Tentava, todos os dias, encontrar em si mesma as coisas horríveis que o garoto poderia ver. Os defeitos tão relevantes. Encontrava alguns, obviamente, mas não conseguia deixar de pensar no quanto já amava aquele que a detestava - sem motivos. Caminhou depressa para casa, rumo à um banho quente e sua cama tão aconchegante. O vinho esperaria por mais uma noite, hoje ela só queria dormir, sonhar com algo bom e amanhã, ao acordar, perceber que a chuva havia levado suas lembranças embora.

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