• Laura Assis

Silêncio

E então entrou naquela sala novamente e viu todas as suas memórias espalhadas no chão e revestindo as paredes. Havia se esquecido de que a sala não tinha teto e assustou-se ao encontrar-se debaixo daquele imenso céu estrelado.

Sentia um sorriso atrás de si, mas não podia mais olhar para trás. A escolha estava feita e uma vez dentro da sala, só sairia novamente quando fosse o momento certo.

Por algum tempo, como já fizera antes, viveria apenas para contar histórias: suas e daqueles com quem dividira mesmo que alguns poucos momentos.

Enquanto estivesse ali não tocaria ninguém, não sairia e ninguém entraria. Permaneceria, como na última vez, em reflexão, reconciliando-se com suas memórias e curando as feridas.

As paredes se moviam ao seu redor e, aos poucos, as portas e janelas foram sumindo, restando ao final do dia só ela, as recordações e a imensidão do céu. Observando aquele azul estrelado, decidiu que já era hora. Sentou-se em meio às lembranças e resolveu começar pela mais recente, que era também as mais dolorosa. Na lembrança havia um lindo céu de abril, aquele costumeiro vento gelado e uma garrafa de vinho. Para começar o processo de reconciliação sempre agradecia pelas coisas boas e, naquele caso, percebeu que só poderia agradecer pelos beijos e abraços, porque aquela era uma memória rasa e sem comprometimento algum com momentos sentimentais. Ainda sim, agradeceu pelos pequenos momentos de paz e carinho.

Em seguida, dizia em voz alta todos os motivos pelos quais aquilo havia lhe machucado tão profundamente. E àquela lembrança, por ser tão recente, ainda era custoso dizer algumas coisas, mas começou dizendo-lhe que se magoou por amar um completo idiota que não sabia a menor diferença entre o amor e o sexo casual. Disse ainda muitas coisas que levou alguns dias e noites para conseguir pronunciar e terminou dizendo que lhe perdoava por plantar uma semente da qual não desejava cuidar quando florescesse.

Perdoou e desabafou exaustivamente durante algumas semanas e, ao final, sentiu-se livre, sentiu-se leve e pronta para começar um outro processo.

Começaria agora o processo que ela costumava chamar de "igualar memórias", que consistia em conseguir colocar aquela memória todos os dias na mesma caixa que as outras, fazendo com que ela fosse deixando de ser especial. Era um processo lento, também. Mas eficaz. Sabia que quando saísse daquela sala, estaria pronta para o mundo outra vez.

E assim, todos os dias ao acordar lembrava-se de colocar na caixa das lembranças que já não significavam nada, aquela mais recente. Assim, progressivamente aquela recordação foi se misturando às outras, tornando-se apenas mais um pequeno pedacinho do seu passado. Agora faltava pouco para que seu coração estivesse aberto novamente...

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