• Laura Assis

Tentativas vãs de um coração ferido

Ainda não são oito horas da manhã e estou naquela padaria. Preciso de um café bem forte e algo bem calórico pra comer, tentativa vã de me curar dos shots desta noite. Passei-a toda bebendo e dançando, mais uma tentativa vã: te esquecer.

Quando queremos esquecer uma pessoa, tudo à nossa volta se parece com ela e ao mesmo tempo nada é igual. Procurei seus beijos em outra boca por toda a madrugada, mas os beijos dela não me faziam tremer e hesitar em parar para respirar. Tentei sentir nas minhas mãos o toque dos seus cabelos, mas nenhum se parece tão fino e macio quanto o seu.

Claro, ao final da balada, acabamos no apartamento dele. Procurei sua pele macia no corpo dele, suas tatuagens, suas pintas tão graciosas. Não encontrei nada de você ali, absolutamente nada. Tomamos mais alguns drinks e conversamos, a rapaz risonho era realmente muito inteligente e centrado na vida, mesmo quando estava bêbado. Mas não encontrei nele a pureza das suas gargalhadas e aquele jeito de me olhar que só você consegue ter.

Aquele jeito que você tem de me olhar quando fazemos amor, quando estou deitada na minha cama do seu lado e você quer dizer alguma coisa mas não consegue. Aquele seu olhar de quem quer me devorar com a boca quando eu passo na sua frente com aquela calcinha rosa neon... não encontrei ali nenhum dos seus olhares.

Me senti um pouco frustrada, a noite virando madrugada e eu ali procurando por você em outra boca e, contraditoriamente, tentando te esquecer com outras sensações. É certo que seria mais fácil ir até a sua casa às duas da manhã, te pedir pra voltar, levar você pra minha casa e dormir até o sol nascer. Mas assim como dois e dois são quatro você não estaria em casa. Estaria em algum lugar fazendo coisas que eu detesto que você faça, com seus amigos que não me acham lá grandes coisas.

Pedi ao rapaz que me indicasse o banheiro, precisava pensar por alguns segundos se realmente queria fazer aquilo. Quando entrei no banheiro a primeira coisa que vi foi um cordão igualzinho ao seu, pendurado na maçaneta do lado de dentro. Seria um sinal? E se fosse um sinal, era um sinal de que eu deveria sair dali e ir atrás de você? Te ligar e perguntar onde estava, se eu podia ir ao seu encontro?

No bolso da calça, o celular. Entrei na sua rede para tentar encontrar um norte, uma direção e o que vi não foi das coisas mais agradáveis. Você também estava se divertindo ao lado de outra pessoa. Sorriam no vídeo. Pareciam felizes. A sua mão na cintura dela, as mãos dela nos seus cabelos. O ciúme me consumiu.

Voltei para a sala e o rapaz estava ainda no sofá, esperando por mim. Quase havia me esquecido dele, dada a sensação péssima que tomou conta de mim lá dentro. Perguntei a ele o que gostaria de fazer e ele, já de pé, desabotoou o primeiro botão da camisa. Foi o bastante para que eu dissesse "sinto muito" e saísse correndo dali.

E agora estou sentada aqui tentando pedir um café à garçonete, com o telefone do rapaz numa mão e o celular na outra. Mas disco o SEU número e só dá caixa postal. O ciúme outra vez me consome! Abro meu telefone, cartão de memória e chip de dados dentro da xícara de café fervendo. Fotos, músicas, contato: tudo apagado. Amanhã vou comprar outro chip, recuperar o número, as fotos e o seu número. Mais uma tentativa vã de esquecer o que vivemos.

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