• Laura Assis

Uma carta, querida

Querida,

Isto deveria ser uma carta. Mas cartas são escritas para serem enviadas e eu não tenho como enviar esta.

Tenho pensado muito em você, nas últimas palavras, no modo como nos despedimos ao telefone. Seria possível recomeçarmos?

Gostaria de vê-la, ao menos uma vez, respirando, sorrindo na minha frente, para acreditar que você foi real e não mais uma peça pregada pelos meus devaneios de sexta à noite.

Cruzamo-nos duas vezes no mesmo lugar. Eu. Você. Na mesma rua. Apenas alguns metros separando-nos. E nada aconteceu. Não nos vimos, não nos reconhecemos. Não nos conhecemos.

Talvez seja triste pensar que eu não resistiria diante de tamanha doçura e beleza. Mas algumas vezes embriago-me com a lembrança do timbre da sua voz em todas aquelas noites, quando você estava a quilômetros e quilômetros de distância. Quando estávamos tão longe foi quando estivemos mais perto.

Arrependo-me, às vezes, de ter lhe dito antes da hora que talvez não tivesse coragem, se um dia me quisesse. Mas meu coração havia me avisado que eu estava diante de um anjo e não se pode mentir aos anjos, não se pode nem mesmo omitir deles a verdade por algum tempo, adiando-lhes o sofrimento.

Sabia que não mereceria que todos os seus pensamentos fossem sobre nós se lhe faltasse com a verdade nua e crua. Mas hoje acredito que tenha me antecipado, dito algo que talvez não viesse a acontecer, passado o carro na frente dos bois, como diria minha mãe... e desejo ouvir sua voz outra vez.

Talvez eu tenha interrompido um sonho lindo. Talvez tenha escapado do pior tormento. Nunca saberemos...

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