• Laura Assis

Vento Noroeste

Entrou sozinha e sentou-se no balcão.

"Uma cerveja!"

"Mais uma, por favor!"

Na cabeça, um turbilhão. À noroeste, um vento frio que lhe cortava a carne e o coração.

Sentou-se n'outro canto e "mais uma".

Tirou da bolsa o moleskine surrado e a caneta quatro cores que levava onde quer que fosse. Rabiscou aqui e ali, de repente duas páginas. As palavras jorravam.

Não conseguia parar, era como se as mãos soubessem traduzir toda aquela confusão de sentimentos. Medo, dor, saudade. Sentimentos que já se esvaíam depois da primeira página. Paixão, desejo e esperança. Brotavam na próxima linha.

"Mais uma" e dá-lhe rabiscos.

No final da terceira página suspirou. Colocara para fora tudo aquilo que machucava, que lhe apertava o calo. Jamais se imaginara naquele amor mal correspondido. Mas sempre soubera que a possibilidade de ocorrer existia e sentia-se preparada. Algumas garrafas e doses a mais, duas ou três noitadas com sua melhor amiga. Somando isso à algumas noites de sexta assistindo Outland, a receita para superação estava pronta.

Aprendera, desde muito nova, a perder e lidar com as perdas da maneira menos destrutiva possível. Tornar lembranças em fragmentos mínimos até que eles se perdessem e não mais os encontrasse. A felicidade estava na próxima página. Tinha não só esperança, mas certeza!

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